O crescimento das apostas online no Brasil começa a produzir efeitos cada vez mais visíveis dentro das empresas. Funcionários endividados, pedidos frequentes de adiantamento salarial, faltas inesperadas, crises familiares, perda de concentração e uso de plataformas de apostas durante o expediente estão entre os problemas relatados por empregadores, sindicatos e profissionais de recursos humanos.
Um dono de restaurante ouvido pela Folha de S.Paulo relatou que, durante três meses consecutivos, um funcionário deixou de comparecer ao trabalho por um dia inteiro logo após o depósito do salário. Ao procurar a família do trabalhador, o empresário descobriu que as ausências estavam relacionadas às apostas. Apesar do problema, ele decidiu orientar o colaborador a buscar atendimento especializado, em vez de dispensá-lo imediatamente.
O caso representa um desafio que começa a atingir empresas de diferentes portes. Segundo a Associação Brasileira de Recursos Humanos, relatos de dívidas de milhares de reais, conflitos familiares e sofrimento emocional ligados às bets já chegam aos departamentos de recursos humanos.
No setor de bares e restaurantes, a situação também preocupa. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes afirma receber relatos de trabalhadores que pedem adiantamentos constantemente, apresentam desatenção durante o expediente ou deixam seus postos repetidas vezes para acessar jogos pelo celular. Pequenos empresários, em especial, enfrentam dificuldades para oferecer programas estruturados de saúde mental e acompanhamento financeiro.
Afastamentos cresceram quase 60%
Os reflexos começam a aparecer também nos registros previdenciários. Em 2025, primeiro ano de funcionamento do mercado nacional de apostas regulado, o número de afastamentos relacionados à perda de controle sobre o jogo passou de 425 para 679, uma alta de 59,8% em relação a 2024.
O total ainda representa uma parcela pequena diante dos cerca de 4,5 milhões de afastamentos registrados pelo Instituto Nacional do Seguro Social no mesmo período. O crescimento, no entanto, evidencia que o problema começa a alcançar o ambiente profissional e pode se intensificar à medida que as apostas permanecem disponíveis durante todo o dia nos celulares.
O transtorno do jogo é reconhecido como um comportamento aditivo. A condição ocorre quando a pessoa perde o controle sobre as apostas e continua jogando mesmo diante de prejuízos financeiros, familiares, emocionais ou profissionais.
Segundo o Ministério da Saúde, notificações, bônus, recompensas variáveis e apostas realizadas em tempo real podem estimular a permanência dos usuários nas plataformas. Entre os sinais de alerta estão gastar mais dinheiro ou tempo do que o planejado, mentir sobre as apostas, apresentar mudanças de sono e humor, comprometer o orçamento familiar e demonstrar ansiedade ou irritação quando não está jogando.
No ambiente de trabalho, a perda de concentração pode provocar erros, queda de produtividade e acidentes, especialmente em atividades que envolvem máquinas, direção, segurança ou tomada rápida de decisões. Quadros de depressão, ansiedade, uso abusivo de álcool e crises de pânico também podem aparecer associados ao jogo compulsivo.
Impacto econômico pode chegar a R$ 38,8 bilhões por ano
O problema não se limita às perdas individuais dos apostadores. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima que os danos sociais e econômicos relacionados ao jogo problemático custem pelo menos R$ 38,8 bilhões por ano ao Brasil.
Desse total, aproximadamente R$ 30,6 bilhões estão relacionados a impactos na saúde, como depressão, tratamentos médicos, perda de qualidade de vida e mortes por suicídio. O cálculo também considera fatores como desemprego, perda de moradia e envolvimento em atividades criminosas.
O levantamento estima ainda que cerca de 12,7 milhões de brasileiros estejam em situação de uso arriscado ou problemático de jogos de apostas. Os pesquisadores destacam que esse número pode ser conservador, pois o cálculo não considera integralmente as perdas financeiras dos jogadores nem os prejuízos sofridos por familiares e pessoas próximas.
Outra estimativa, apresentada pela Confederação Nacional do Comércio, aponta que a inadimplência relacionada às bets teria retirado R$ 143 bilhões do comércio varejista entre janeiro de 2023 e março de 2026. Segundo o levantamento, cerca de 270 mil famílias podem ter sido levadas a uma situação de inadimplência severa, caracterizada por dívidas atrasadas há mais de 90 dias. O setor de apostas, por sua vez, contesta a metodologia e considera a avaliação alarmista.
Empresas começam a criar campanhas
Diante do avanço do problema, empresas como Ypê, Gerdau e Whirlpool, responsável pelas marcas Brastemp e Consul, passaram a realizar palestras, oficinas de educação financeira e ações de conscientização sobre os riscos das apostas.
A Ypê, por exemplo, desenvolveu uma atividade voltada aos impactos financeiros e emocionais das bets, aos gatilhos comportamentais e aos sinais de perda de controle. Os participantes também receberam orientações sobre programas de acolhimento e redes de apoio.
A Federação dos Trabalhadores em Serviços, Asseio e Conservação Ambiental e Urbana também mantém uma campanha permanente de conscientização. A entidade afirma ter identificado trabalhadores que perderam salários, acumularam dívidas, recorreram a empréstimos ilegais e desenvolveram quadros graves de sofrimento emocional.
Especialistas defendem que as empresas preparem lideranças e equipes de recursos humanos para identificar mudanças repentinas de comportamento, faltas frequentes, pedidos recorrentes de dinheiro, queda de rendimento e sinais de sofrimento psicológico.
A recomendação é evitar julgamentos ou constrangimentos públicos. O trabalhador deve ser chamado para uma conversa reservada e, quando houver indícios de adoecimento, orientado a procurar avaliação médica e psicológica.
A demissão imediata também pode gerar disputas na Justiça do Trabalho quando existe diagnóstico de transtorno do jogo e a empresa tinha conhecimento da condição. Por isso, empregadores devem analisar cada situação individualmente, documentar as providências adotadas e buscar orientação médica e jurídica antes de aplicar penalidades.
Onde procurar ajuda
Desde março de 2026, o Sistema Único de Saúde oferece teleatendimento gratuito para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas, além de familiares e integrantes da rede de apoio.
O acesso pode ser feito pelo aplicativo Meu SUS Digital. Na área de miniaplicativos, o usuário deve selecionar a opção relacionada a problemas com jogos de apostas e responder a um questionário. Quando o resultado indica risco moderado ou elevado, o encaminhamento para atendimento especializado é realizado automaticamente.
O serviço começou com capacidade estimada de 600 atendimentos por mês, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. Unidades Básicas de Saúde e Centros de Atenção Psicossocial também podem oferecer acolhimento e encaminhamento aos pacientes.
Outra alternativa é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão do governo federal. A ferramenta permite bloquear voluntariamente o acesso a todas as casas de apostas autorizadas no país, por prazo determinado ou indeterminado.
Até maio de 2026, mais de 574 mil pessoas haviam utilizado o sistema. Entre os usuários que informaram o motivo do bloqueio, 41% apontaram perda de controle ou impactos sobre a saúde mental, enquanto 12% mencionaram problemas financeiros.








