A crise entre a UEFA e a FIFA ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira, 6 de agosto. Mesmo depois de a entidade máxima do futebol abandonar o projeto que permitiria a entrada de investidores privados na exploração comercial de suas principais competições, a confederação europeia afirmou que a ameaça de boicote aos torneios organizados pela FIFA continua válida.
O centro da disputa é a Fifa Forward Enterprise, conhecida pela sigla FFE. O projeto previa a criação de uma nova empresa para administrar operações comerciais ligadas à Copa do Mundo, à Copa do Mundo de Clubes e a outros eventos da entidade.
A FIFA estimava que a companhia poderia alcançar uma avaliação de aproximadamente US$ 20 bilhões. O plano previa a venda de cerca de 20% da empresa a investidores privados, operação que poderia levantar até US$ 4,2 bilhões.
A proposta provocou uma reação imediata da UEFA e de várias federações nacionais. Os críticos afirmaram que uma decisão capaz de modificar a estrutura comercial e a governança das principais competições do futebol mundial havia sido negociada sem transparência e sem a participação adequada das confederações, federações, jogadores e demais representantes do esporte.
Diante da pressão internacional, a FIFA desistiu do projeto. A entidade também pediu desculpas às suas 211 associações filiadas pelos erros cometidos durante a condução da proposta e anunciou uma revisão dos procedimentos internos que permitiram o avanço das negociações.
O recuo, porém, não foi considerado suficiente pela UEFA.
Em comunicado, a entidade europeia afirmou que as federações filiadas haviam estabelecido duas condições para evitar a ausência em competições organizadas pela FIFA. A primeira era a retirada do projeto de venda de participações nas principais competições. A segunda exigia garantias de que propostas semelhantes não seriam retomadas no futuro.
Segundo a UEFA, o conjunto dessas condições ainda não foi integralmente atendido. A entidade também reiterou que perdeu a confiança na presidência de Gianni Infantino e declarou que o apoio público manifestado por dirigentes e funcionários da FIFA não altera a posição europeia.
Na semana anterior, as 55 associações nacionais ligadas à UEFA haviam concordado em boicotar torneios da FIFA caso o plano da FFE não fosse retirado e não fossem apresentadas garantias contra novas tentativas de privatização das competições. Apesar da desistência do projeto, a falta de compromissos considerados sólidos mantém aberta a possibilidade de não participação europeia.
Primeiro torneio pode ser afetado em setembro
O primeiro teste concreto da crise poderá acontecer na Copa do Mundo Feminina Sub 20, marcada para começar em 5 de setembro, na Polônia.
A UEFA ainda não confirmou oficialmente se as seleções europeias deixarão de disputar o torneio. No entanto, caso não haja um acordo nas próximas semanas, a competição poderá se tornar o primeiro evento da FIFA atingido pela mobilização liderada pelo futebol europeu.
Uma eventual ausência das seleções europeias teria impacto esportivo, político e comercial. Além de concentrar algumas das principais federações e seleções do mundo, a UEFA representa mercados fundamentais para direitos de transmissão, patrocínios e receitas de grandes competições internacionais.
A disputa também gera dúvidas sobre a Copa do Mundo de 2030, que terá partidas disputadas em Espanha, Portugal e Marrocos, além de jogos comemorativos na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. Embora o torneio ainda esteja distante, a ameaça de boicote evidencia o nível de desgaste entre as instituições que controlam o futebol mundial.
Conmebol e jogadores também criticam a Fifa
A pressão contra a gestão de Gianni Infantino não está restrita à Europa.
A Conmebol manifestou preocupação com o que classificou como ações unilaterais repetidas e realizadas sem diálogo ou respeito aos mecanismos institucionais da FIFA. A entidade sul americana, entretanto, defendeu que qualquer mudança seja conduzida pelos processos formais de governança e evitou aderir imediatamente ao movimento de boicote.
A Fifpro, sindicato internacional dos jogadores, adotou uma posição mais dura. A organização classificou a criação da Fifa Forward Enterprise como um profundo abuso do poder presidencial e afirmou que a retirada do projeto não elimina os problemas revelados durante o processo.
Para a Fifpro, uma proposta capaz de alterar permanentemente a propriedade e a administração comercial da Copa do Mundo foi elaborada em segredo e avançou sem o conhecimento das principais partes envolvidas no futebol.
Crise antinge futuro político de Infantino
O episódio também ameaça os planos políticos de Gianni Infantino. O dirigente pretende disputar um quarto mandato na eleição presidencial da FIFA prevista para março de 2027, no Marrocos.
Embora ainda mantenha apoio significativo entre federações da África e da Ásia, Infantino começou a perder aliados. As federações da Inglaterra e da Albânia retiraram oficialmente o apoio à sua candidatura. O presidente da Federação Jordana de Futebol, príncipe Ali bin Al Hussein, também afirmou que não apoiará a reeleição.
Até o momento, porém, não surgiu um adversário com força suficiente para desafiar o atual presidente. O apoio de associações menores, que dependem dos programas de financiamento e desenvolvimento da FIFA, continua sendo um dos principais pilares políticos de Infantino.
A FIFA sustenta que as medidas relacionadas ao projeto comercial respeitaram seus regulamentos e afirma que os principais erros ocorreram na comunicação e na condução do processo. A entidade prometeu realizar uma investigação interna e apresentar um relatório ao Conselho da FIFA em uma reunião futura.
Para a UEFA e outras organizações, no entanto, a crise ultrapassou a discussão sobre a criação de uma empresa. O debate agora envolve a concentração de poder na presidência da FIFA, a transparência das decisões e o futuro da administração das competições mais valiosas do futebol mundial.





