O presidente e proprietário da Voepass, José Luiz Felício Filho, admitiu à Polícia Federal que a companhia mantinha uma prática de não registrar formalmente determinadas falhas técnicas das aeronaves. Segundo o empresário, o comportamento era conhecido internamente e já havia sido alvo de alertas feitos pessoalmente por diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ao longo dos anos.
O depoimento, prestado em 4 de agosto de 2026, integra a investigação sobre a queda do voo 2283, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, no interior de São Paulo. O acidente matou as 62 pessoas que estavam a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes. O avião, um ATR 72-500 de matrícula PS-VPB, seguia de Cascavel (PR) para Guarulhos (SP) quando perdeu o controle durante o voo, diante de condições favoráveis à formação de gelo.
De acordo com as apurações, a ausência de registros dificultava que os setores responsáveis identificassem os problemas e adotassem medidas de manutenção antes de novos voos. O relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) já havia apontado uma “cultura de normalização de desvios” dentro da empresa, com falhas que não eram formalizadas para permitir a continuidade da operação das aeronaves.
No caso do avião que caiu em Vinhedo, investigadores identificaram problemas recorrentes no sistema de degelo em voos anteriores ao acidente. As ocorrências, segundo a investigação, não foram registradas nos diários de bordo. Dados analisados também apontaram que o sistema apresentou falhas ou foi acionado e desligado repetidamente em dezenas de voos.
Durante a oitiva, Felício Filho reconheceu que a aeronave não deveria estar nas condições em que foi colocada para voar e admitiu que houve uma decisão inadequada no dia da tragédia. A declaração reforça as conclusões da investigação sobre a liberação do avião para uma rota com previsão de condições severas de formação de gelo, apesar do histórico recente de problemas no sistema de proteção contra o gelo.
A Polícia Federal concluiu o inquérito com o indiciamento de 16 pessoas, entre elas o próprio presidente da Voepass. Diretores ligados às áreas de operações, manutenção e segurança, além de mecânicos e despachantes operacionais, também foram incluídos na investigação. Eles são apontados por possível envolvimento em condutas relacionadas à segurança do transporte aéreo que teriam contribuído para o desastre.
O caso agora segue para análise do Ministério Público, que deverá avaliar as conclusões da Polícia Federal e decidir sobre eventuais medidas judiciais. A investigação criminal ocorre paralelamente ao trabalho do Cenipa, cuja apuração técnica identificou uma combinação de fatores envolvendo condições meteorológicas, falhas no sistema de degelo, procedimentos operacionais e problemas organizacionais da companhia.







